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divagações, manuscritos e conversas de mesa de bar



31.8.03

vocês são as laranjas no RU da minha vida

Eu gosto pra caralho dos meus amigos. Passei a noite inteira ontem com vontade de esfregar o coração de vocês na cara (apud Nego)

A minha modesta festinha de despedida reuniu, no pico do movimento, mais de quarenta pessoas que apareceram pra me dar um abraço, tomar um trago e praticar rituais tribalísticos de dança e esportes revolucionários - no meu aniversário foi o SOFA MOSH, e agora o TAPETE FIGHT (dos quais infelizmente não pude participar pelas minhas precárias condições JOELHAIS, agravadas por um SPRINT imbecil que eu dei escada abaixo para recepcionar mais alguns viventes.)

Como previsto, a situação alcólica atingiu graus de perfeição: a ceva esteve virtualmente sempre gelada, o André confirmou o apelido de amigo do Francisco que faz a melhor caipirinha do mundo e até um vinho foi bebido por alguns, se não me engano. Ah, sobrou bebida, a propósito - algum fim nobre ela terá nessa semana. A destruição não deu motivos para alarma, especialmente porque uma vizinha foi remunerada para fazer o grosso da limpeza e eu intencionalmente fiquei na cama até o surto psicótico do meu pai passar.

De resto não posso falar muito mais - em certo momento da noite minhas percepções se confundem e não sei mais o que aconteceu. Só me recordo de abrir para as últimas pessoas irem embora e lembrar de colocar o alarme pra funcionar (que depende de abrir um PAINEL e usar um CÓDIGO NUMÉRICO) - mas deixando todas as luzes acesas e as portas abertas, além da cerveja quase explodindo no freezer.

Para os que não compareceram, lamento pela festa que perderam, que tava TRIMMMASSA - mas nem se preocupem com justificativas: eu sei quem são meus amigos, não preciso de lista de chamada pra isso (como disse algum tempo atrás); afinal, era só uma festa.

Nego, Ananda, Raca, obrigado pelas oferendas - desculpa se esqueci de mais alguém.

No geral, obrigado por me darem motivos para sentir saudade e querer voltar pra casa um dia. Valeu.

[por Francisco Mahfuz] 23:35

30.8.03

this will be the day that i die

Saio de casa daqui a pouco para fazer os últimos preparativos e compras para a destruição que ocorrerá em algumas horas na casa do meu pai. Se meu receio já existia, depois dessa correspondência estou realmente preocupado:

MAHFUZ SENIOR PALACE RESIDENCE COMPLEX
21-22 HORAS
LEVE 5 REAIS EM CERVEJA
E AZUCRINE ATÉ PORQUEAR

lml lml
lml lml

ESTAREMOS COLETANDO VÔMITOS DA RAPAZIADA NUM BALDE PARA DEPOIS BANHARMOS NOSSO VIAJANTE AOS MOLDES DE UM TIME DE FUTEBOL AMERICANO QUE CONGRATULA SEU TÉCNICO APÓS UMA GRANDE VITÓRIA DERRAMANDO GATORADE NELE. VOCÊ NÃO VAI FICAR DE FORA, VAI?

lml lml
lml lml

ADORMECEREI NAS REDONDEZAS.

lml lml
lml lml

NEGO


Temo.

[por Francisco Mahfuz] 19:20

i'm lacking in depth

Gostei tanto desse treco aí debaixo que já linkei ali no "artê" o Pinel Comics.



Roubado do blog que tá morto mas não se entrega.

[por Francisco Mahfuz] 19:12

paradoxo

Parece que quanto mais eu faço menos coisas eu tenho pra dizer aqui. Quando a minha vida estava um exercício camuseano de tédio eu postava coisas enormes duas ou três vezes por dia. Agora quase só citações e pequenos parágrafos que não me tomam mais do que dois minutos pra escrever (como esse).

Intrigante.

[por Francisco Mahfuz] 01:15

28.8.03

algodão entre os cristais

Educação é o ouro. Por confusões eletrônicas na reserva do albergue em que me hospedarei na chegada em Londres, eu estava a ponto de tomar um tufo de 11 libras, mais ou menos 50 pila. Mandei uma delicada correspondência com toda a pompa britânica (heh) de que sou capaz e hoje, menos de 24 horas depois, fui informado de que meu depósito será devolvido.

Em outros tempos eu simplesmente teria ficado brabo e xingado alguém. Gostei mais desse jeito aqui.

[por Francisco Mahfuz] 22:36

27.8.03

ensinamentos

When you have once seen the glow of happiness on the face of a beloved person, you know that a man can have no vocation but to awaken that light on the faces surrounding him; and you are torn by the thought of the unhappiness and night you cast, by the mere fact of living, in the hearts you encounter.

Mostrando que a bondade é o caminho, Albert Camus.

[por Francisco Mahfuz] 22:28

26.8.03

tô aqui no bingo azenha

É muito bom quando podemos ajudar os outros sem absolutamente nenhum benefício próprio.

De repente compensa um pouco das bobagens que eu ando fazendo.

[por Francisco Mahfuz] 23:48

takeoffs and landings

Fui dar ciao a meu bom amigo Thomé no aeroporto novo hoje. Curioso despedir-me de alguém sabendo que em uma semana e meia quem vai estar largando fora sou eu. Especialmente por não saber o que me espera do outro lado do oceano.

Às vezes penso que ir absolutamente sozinho, com apenas alguns contatos de pessoas que não conheço seja meio porra-louquice demais, mas já era. Tá na hora de eu dar a cara a tapa. O que mais tenho pensado é como meus objetivos mudaram desde que inventei de dar essa banda. Tudo que me impelia a sair praticamente não existe mais. Se antes pensava em me distanciar de certas coisas que me incomodavam, hoje parece quase uma pena estar deixando-as pra trás. Nunca a vida esteve tão boa, e ainda assim nem penso em não viajar. Se não tenho mais razão pra sair daqui, ainda tenho muita pra ir pra lá. Sempre que me perguntam o que estou indo fazer, eu respondo só "viver" - que parece meio afetado, mas é isso mesmo.

O objetivo de toda viagem é encontrar o viajante.
-- Sua Santidade o XIV Dalai Lama


O que não signifique que eu já não esteja com saudades de muita gente que vou deixar por aqui.

[por Francisco Mahfuz] 18:31

engorde mutante

Pra quem gostou do "X-Men 2", aqui tem uma renca de cenas excluídas, inclusive uma luta prolongada do Wolverine com a japa aquela.

A carniça é bem interessante, recomendo.

[por Francisco Mahfuz] 00:57

24.8.03

sabedoria

Mais que faculdade, eu diria que a imaginação é virtude. Na origem de todo ato cruel, não há uma pobreza de imaginação que impede a menor corridinha simpática, a mudança, sequer momentânea, para a situação do próximo? O egoísmo provém de idêntico defeito. Com visão clara de nossa futilidade, poríamos tanto empenho em nos promover e em nos homenagear?

"O Dom Supremo", de Adolfo Bioy Casares (conto do livro "Histórias de amor").

[por Francisco Mahfuz] 18:35

23.8.03

fecha a janela e procura um espelho



Encher a cara e não comer antes é bem coisa de amador. Fui. Hoje acordei queimado no horário, com a cabeça explodindo e o estômago revirado. Fedendo a álcool, suei frio, fiquei tonto e passei mal como há tempos não acontecia. No primeiro momento de trégua da náusea fui a um restaurante comer as batatas fritas mais gordurosas do mundo e tomar um suco de morango suspeito, o que certamente me trará problemas LOGO.

Nem isso nem o MELHÃO de reais que eu gastei pagando DÍVIDAS CÁRMICAS ofuscará os maravilhosos ensinamentos dessa GATA aí de cima. Paguei dez pila e devia ter deixado algum órgão vital também - não seria suficiente.

E o sábado reserva outras atrações ainda.

Vai.

[por Francisco Mahfuz] 22:43

fui a última das minhas amigas a deixar de ser virgem

Coisa interessante esse Diário da Garota Buttman.

Link roubado do Daniel.

[por Francisco Mahfuz] 22:14

siga o coelho branco

Baita livro, esse tal de "Alice no País das Maravilhas" (junto com "Alice no País dos Espelhos", na edição que eu li). Quem acha que é só um conto-de-fadas bobinho... está certo. E errado também. A interpretação de cada encontro, cada personagem, carrega muito mais significação que muitos dos ditos "livros sérios", só depende do leitor conseguir ver mais além. Os diálogos são geniais, os trocadilhos e brincadeiras com a linguagem (que infelizmente devem perder-se um pouco com a tradução) mostram a genialidade de Lewis Carrol, que, sem dúvida, dominava a arte da MACONHA LITERÁRIA. De brinde, a história é bem engraçada, rolou um sorriso permanente aqui enquanto lia. E, se nada disso te convenceu, compra pelos desenhos bonitinhos.

Pra vender em qualquer banca nessa coleção da LPM por 12 pila.

[por Francisco Mahfuz] 01:45

21.8.03

perfeição

A lua cheia refletiu no mar calmo, iluminando assim as rochas que se espalhavam pelas brancas areias da praia deserta. Paulo caminhava molhando seus pés na água, sem ter a mínima idéia do que estava fazendo ali. Até que viu Mariana, sentada numa das pedras, a brisa jogando seus cachos loiros sobre o rosto e quase escondendo o sorriso mais perfeito que ele já havia visto. Foi em sua direção, trocaram olhares cálidos e beijaram-se com uma paixão única, inigualável, maior que qualquer coisa que ele pudesse imaginar.

Eles começaram a namorar, e estavam juntos o tempo todo. Passeavam por parques sempre ensolarados, alimentavam os pombos perto do rio, iam ao cinema ver filmes que nunca eram ruins. Seus gostos combinavam, adoravam a companhia um do outro; por mais que ficassem perto, nunca se cansavam, não discutiam, não brigavam. Paulo sentia-se completamente feliz, não podia querer uma mulher mais perfeita que Mariana.

Entretanto, algumas coisas lhe intrigavam bastante. Ele sabia que era um médico de sucesso, mas nunca trabalhava - e Mariana não falava nada sobre a vida profissional dela, apesar de em nenhuma ocasião reclamar de dinheiro. Paulo quase não saía com os amigos, e, quando o fazia, passava todo o tempo falando bem da namorada. Eles eram perfeitamente compreensivos e lhe cumprimentavam pela relação que tinha. Não falavam sobre outras mulheres, futebol, essas coisas. Nem cerveja eles bebiam.

Paulo praticamente não ficava sozinho. Nos raros momentos em que não estava com Mariana, dedicava-se a suas atividades artísticas. Mas não interessava o que tentasse fazer, sempre acabava com uma canção, uma pintura ou um poema sobre sua amada. Entregava esses presentes sem data nenhuma para celebrar, acompanhados pelas flores preferidas dela - que ele sabia sem nunca ter perguntado. E o mais estranho de tudo é que eles não transavam. O contato físico não ia além de beijos ardentes, e não era por falta de oportunidade; nem mesmo depois que casaram-se naquela festa perfeita (que apareceu até na televisão) e passaram sua lua-de-mel viajando pelo mundo todo não dormiram juntos. E Paulo, apesar de não entender, não conseguia se importar.

Foi só quando ele segurou nos braços sua primeira filha, filha de um casamento que nunca havia sido consumado, que ele entendeu. Só ali, olhando aquela criança simplesmente perfeita, Paulo finalmente compreendeu que sua vida não era nada além da fantasia romântica de uma ainda inocente menina.

[por Francisco Mahfuz] 15:59

praticar é preciso

Passo todos os dias aqui pela Azenha esperando que os mendigos não habitem cada esquina, e que eu não veja os mesmos moleques e aleijados pedindo dinheiro nas sinaleiras. Mas as igrejas universais recém-abertas cada vez mais cheias só me fazem pensar que paz é uma coisa rara nesses tempos duros. E talvez o mais triste é que são cenas tão comuns que todos parecem acostumados.

Quando vemos quem sofre como mais um pedaço da paisagem é porque estamos definitivamente cegos.

[por Francisco Mahfuz] 00:52

20.8.03

a senhora gorda cantou

Acabou meu semestre. Não sei de uma nota ou outra ainda, mas minha presença não é mais requerida no glorioso Campus do Vale. Organizarei minhas impressões sobre este período intrigante que finda e darei a real. Mais tarde. Agora vou às compras.

[por Francisco Mahfuz] 20:20

jabá

ide e comprai.

pra quem é de porto alegre, uma boa notícia. agora tem "quarto dos livros" pra vender na boca do disco (av. marechal floriano, 439) e na magazine records (galeria chaves, na rua dos andradas). assim fica mais fácil, não precisa mais comprar pela internet. em breve estaremos informando outros pontos-de-venda em outras cidades.


Direto do site da Fresno.

[por Francisco Mahfuz] 16:35

19.8.03

acabaram as pilhas e não me importo

Percebo ultimamente como a televisão é um aparato desnecessário; não tenho assistido mais do que uma hora e pouco por dia, se tanto - já varei semanas quase sem ligar a dita cuja, e nem notei. Obviamente que o fato de passar bastante tempo ou no computador ou lendo significa que eu posso ter trocado um vício por outro, mas é curioso lembrar de quando eu era um piá de merda que via 10h de tv por dia.

Ademais, não terei acesso residencial a um tubo catódico no velho continente, então teria que perder o hábito de qualquer jeito.

Beleza, uma coisa a menos pra fazer.

[por Francisco Mahfuz] 20:06

constatação da terça-feira

Qual será que foi a macumba que encerrou (semana passada, por sinal) a seqüência de meses em que chovia TODA TERÇA?

Agradecido, aqui.

[por Francisco Mahfuz] 19:52

18.8.03

fernando pessoa é zen pra caralho

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convites de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

[...]

Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes;
quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


Um pouco mais aqui.

[por Francisco Mahfuz] 04:55

17.8.03

quero que eles fiquem milionários (apud Paraíba)

Bem bom esse tal de Habib's. A comida é ótima, os preços são acessíveis e o serviço, apesar de lento, é extremamente simpático. A variedade do cardápio também chama a atenção, terei que ir umas 40 vezes lá pra provar tudo. De negativo mesmo só o hype que ainda tá rolando, que hoje me fez esperar quase meia-hora na fila pra entrar.

Uma coisa bem curiosa sobre essa nova lanchonete é que aquele terreno era a casa do meu vô, onde eu por muito tempo tive comida árabe em quase todos os almoços de domingo (Mahfuz é de origem libanesa) e onde um pastor alemão chamado HABIB viveu.

[por Francisco Mahfuz] 05:27

16.8.03

não embrulhei mesmo, e daí?

Já que estou no assunto de festas grandes, queria deixar uma coisa bem clara: não é num evento assim que tu mostra que alguém te é importante ou não.

Tem pessoas que eu não vejo nunca, com quem converso ocasionalmente, muito por preguiça ou desleixo de alguma das partes. É óbvio que algumas coisas são mais difíceis agora, cada um tem uma vida às vezes bem atribulada e tal, mas tu não compensa isso botando um terno, dando um abraço e comendo às custas do outro - ou indo num aniversário ou despedida e enchendo a cara. É no esforço que se emprega a cada dia que a gente vê com quem podemos realmente contar.

Triste vida terei quando eu depender de uma lista de chamada nas festas pra saber quem são meus verdadeiros amigos.

[por Francisco Mahfuz] 07:49

meu pai... minha mãe... 14 anos...

Por que formaturas têm que ser tão profundamente chatas? Tenho sérias dúvidas se alguém realmente se diverte ouvindo aqueles discursos que são nada mais que clichês repetitivos e conselhos a la Lair Ribeiro e afins. MURRINHA BRAGARÁI.

Devem existir alternativas. De repente alguma coisa mais criativa, como alguma demonstração ou vídeo de trabalhos dos formandos pra mostrar o que eles aprenderam (heh)... sei lá, QUALQUER COISA que não faça jogar Snake parecer tão divertido. Quem sabe o diretor fala por cinco minutos, o paraninfo mais cinco, cada formando dois e ERA ISSO? Ah, mas todo mundo se arrumou (menos eu, obviamente), as gurias gastaram aquela nota no salão, a cerimônia não pode durar menos que duas horas...

Quando eu for o PAXÁ essa merda toda MUDARÁ. Aguardem.

[por Francisco Mahfuz] 07:38

15.8.03

luana

Ela era a guria mais linda que eu já tinha visto. Seu cabelo era negro, muito longo e liso, e ela o colocava pra trás da orelha de um jeito tão meigo que dava vontade de pô-la no colo; tinha um rosto angelical, lábios grossos, olhos azuis que te faziam pensar que a felicidade existia. As pernas eram fortes, os seios um pouco maiores do que uma mão em concha, a medida perfeita - e a bunda tão incrível que era até difícil de acreditar. Além disso ela era inteligente, engraçada, querida, tantas qualidades que nem vale a pena dizer. E eu odiava ela, como poucas vezes odiei alguém.

O negócio começou quando eu entrei no colégio, no primeiro ano do 2° grau. Meu pai era gerente dum banco grande, tinham mandado ele pra cá e a gente veio junto. Não era a primeira vez que acontecia, eu já estava até um pouco acostumado em fazer tudo do zero. Entrei na escola nova, e eu sou um cara quieto, demoro bastante pra me enturmar. Vi essa guria, a Luana, me olhando com um pouco mais de atenção do que os outros mas nem dei bola, achei que devia ser só impressão, o que uma gostosa dessas ia querer comigo? Mas depois de um tempinho vi que eu não podia estar enganado, ela realmente parecia interessada. Aí uns caras vieram comentar isso e eu disse Aham, já notei, mas sei lá, né? Ela veio falar comigo algumas vezes, sentava do meu lado na aula e a gente conversava bastante, eu tava começando a gostar dela, mas tava com um pé atrás, sou meio feio, não achava que tinha chance mesmo. Quando teve um churrasco na casa de um tal de Beto me convidaram, e eu fui esperando que ela fosse também. Ela foi. Uns colegas vieram me falar que tava no papo, era só chegar e tal. Eu cheguei. No meio do papo fui indo pra perto dela, largando umas indiretas e ela fechou os olhos e inclinou a cabeça na minha direção; eu também fechei os meus e fui beijar ela. Não encontrei nada. Quando abri os olhos ela tava me olhando meio de longe e rindo, rindo sem parar, e as amigas e amigos dela também. Tinha sido tudo uma sacanagem. Vamos ferrar com esse aluno novo e idiota que chegou aí, alguém deve ter sugerido, e todo mundo gostou da idéia. Eu era o idiota, e não gostei nem um pouco.

Do dia seguinte em diante sempre que passavam por mim no corredor eles riam e apontavam, e aquilo foi aos poucos me deixando louco. A Luana era a pior, me dizia barbaridades, fazia as piadas mais horríveis, e eu comecei a responder, gritava com ela, a gente discutia no meio da aula às vezes. Virei motivo de chacota no colégio. Quem esse merda acha que é pra pegar alguém aqui, eles diziam. O que me deixava mais puto era uma guria que tinha tudo ficar incomodando um cara inofensivo como eu.

A situação melhorou um pouco quando ela meio que de repente foi viajar, pra Austrália, foi o que eu ouvi. Por alguns meses quase não me incomodaram, e eu começei a esquecer dos meus problemas e não me importar de ir à aula. Ela voltou no meio do outro semestre, um pouco gorda, os peitos maiores, tinha uns caras que diziam que era silicone, mas acho que não. E tudo voltou ao que era antes. Cada manhã eu saía de casa sabendo a tortura que me esperava, e achava que não ia agüentar muito mais.

E não agüentei. Decidi dar um fim aquilo, encontrar a Luana fora do colégio e dar umas porradas nela, ou ao menos tentar com que ela parasse de me encher. Um dia peguei o carro do meu pai e segui a mãe da Roberta, que sempre dava carona pras duas após a aula. A Luana desceu na frente de um condomínio grandão e começou a procurar algo na mochila enquanto sua carona ia embora. Logo que o carro dobrou a esquina ela parou de mexer na mochila e começou a caminhar. Eu não entendi direito, mas continuei seguindo ela meio de longe só pra garantir. Estacionei logo que a vi entrando no meio dumas casas meio pobres e fui a pé atrás. Quanto mais a Luana andava mais miseráveis as residências, e eu ali achando que ela de repente estava visitando alguém, mas tentando imaginar quem ela podia conhecer num lugar assim. Ela entrou num casebre no fim da rua, e não saiu mais. Fui até a janela e olhei lá pra dentro. Era uma casa bem simples, quase nada de móveis, uma televisão muito antiga, uma mesa dessas bem vagabundas e um berço velho, com a madeira já toda carcomida. Dentro, um nenê bem novinho. Luana apareceu, arrumou algumas coisas e pegou no colo a criança que havia começado a chorar. Quando isso não pareceu funcionar, ela tirou o peito pra fora e levou à boca do nenê. Eu fiquei tão surpreso que devo ter feito algum barulho alto e ela se virou exatamente pra onde eu estava. Por sorte acho que consegui me abaixar e sair dali antes que ela me visse. Acho.

Passei o resto do dia tentando pensar no que dizer pra ela, como eu podia ajudar, mas principalmente me sentindo mal por tudo que a gente já tinha brigado. A guria tinha problemas bem maiores do que eu imaginava, achei que a gente não tinha mais por que discutir, eu não ia mais ser dessa maneira com ela. Logo que cheguei no colégio na manhã seguinte ela tava lá com as amigas de sempre. Cheguei perto e já fui dizendo Olha, sobre o jeito que eu tenho te tratado, eu queria te dizer que... as outras não entendiam o que acontecia e começaram já a discutir comigo. Eu meio que me distraí, briguei com elas, e não reparei na Luana. Quando eu vi ela tava pálida, me olhando com os lábios tremendo e os olhos marejados. Hesitei por uns segundos, respirei fundo e disse Olha, eu tenho te tratado assim porque tu é uma vagabunda. Ela me olhou meio espantada, as amigas dela gritavam e eu continuei Isso mesmo, tu é uma baita puta. Ela se recompôs e berrou comigo, me chamou de tudo que é tipo de nome possível, eu respondi, as outras duas tentavam me empurrar dali e ela gritava como nunca tinha gritado antes. O sinal tocou, eu abaixei a cabeça e fui em direção à sala. Um pouco antes de cruzar a porta me virei e vi que, meio escondida atrás das amigas que ainda xingavam, ela tava sorrindo pra mim.

[por Francisco Mahfuz] 15:14

tragicomédias aquáticas

Cousas acontecidas recentemente no GNG, enquanto eu tentava a prática nobre da natação, que me deixaram sem saber se ria ou chorava:

- Carregar a mochila cheia de porcaria por algumas horas, chegar no clube, me arrumar, alongar, botar os óculos e ao tentar botar a toca na cabeça perceber que, sem querer, havia pego uma CUECA da mesma cor - que obviamente cogitei, por alguns segundos, tentar usar como se fosse o artigo de verdade.

- Ver um QUARENTÃO BOMBADO colocar a perna em cima da pia e começar a passar HIDRATANTE em todo o corpo.

- Tentar ver qual era dessa tal de SAUNA QUENTE, com uma toalha na cintura, dar uma relaxada e tal. Sentar do lado de um velho com uma PANÇA DE MELANCIA se barbeando e de um outro magrão, os dois nus. Observar com HORROR o momento que o cara desocupado se levantou e, de costas pra mim, ABRIU AS PERNAS, fez aquele BENT OVER nada parcêro e COMEÇOU A ALONGAR AS COXAS SEGURANDO OS TORNOZELOS. Ter pesadelos com aquela cena até hoje.

Ninguém merece.

[por Francisco Mahfuz] 00:58

13.8.03

disclaimer

Seguidamente escuto coisas como não entendi direito de quem tu tava falando ali, vi várias coisas tuas naquele texto ou a campeã isso não é sobre quem eu tô pensando, né?; LET GO - isso na real não importa. Meu acervo de experiências e de idéias não é tão grande, então DE UM JEITO OU DE OUTRO, tudo que eu escrevo é inspirado pelas pessoas que me foram importantes, ainda que não sejam recados diretos a elas ou sobre o que eu sinto ou deixei de sentir. Então, por favor, quando lerem algo aqui, especialmente as pretensiosas tentativas de literatura ou lirismo desbragado, façam-no como LEITORES, e não como detetives. Gracias.

E además, de vez em quando, bem de vez em quando, eu não sou tão óbvio assim.

De vez em quando.

[por Francisco Mahfuz] 23:16

12.8.03

ajudem os seres

Recebi isso aqui por e-mail e junto-me à campanha. Quem puder auxiliar de algum jeito o DharmaNet, faça-o, por favor; muita gente agradece.

Amigos,

Como vcs sabem sou um dos colaboradores do Dharmanet junto com outros colegas aqui das listas e hoje recebemos uma triste notícia: não mais teremos hospedagem gratuita na Matrix, o que poderá ocasionar o fim do Dharmanet, infelizmente.

Há quase 5 anos fomos procurados pela Matrix, provedor de Santa Catarina, para que nosso site fosse transferido para lá, pois éramos um grande gerador de tráfego e isso era uma das métricas de valor para provedores na época. Já naqueles dias, gerávamos um tráfego de quase 100.000 hits por semana e qq provedor gostaria de ter isso para se valorizar, logo, nos ajudamos mutuamente, tínhamos um super espaço e eles um super tráfego.

Sendo assim, nos foi oferecido espaço de 1 Gbyte, mais um número ilimitado de caixas postais e tantas outras facilidades.

Há pouco mais de um ano fomos obrigados a colocar um banner da Matrix no site sob pena de termos nosso contrato cancelado, já que era o fim das .COM e os provedores tinham que baixar custos e "page views" deixou de ser métrica. Decidimos por colocar o banner, embora nosso contrato não exigisse isso. Há alguns meses reduziram nossas caixas postais para 15 e, hoje, quebraram o contrato definitivamente.

O ponto é que o Dharmanet foi idealizado pelo Elton Melo (Pema Sonam) que nunca pensou em ganhar dinheiro com isso e quando ele convidou os atuais membros do "staff" para compor a equipe, decidimos em comum acordo que jamais utilizaríamos o Dharmanet para qq fim comercial, e só temos uma excessão a esta regra que é nossa livraria virtual, em parceria com o Submarino, q nos rende de R$10,00 a R$ 15,00 por mês que guardamos para pagar a FAPESP e compramos livros e CDs de Budismo com o que sobra para reverter em material para o próprio site. Mesmo assim, sobra pouco o que nos impossibilita de manter o site caso tenhamos que pagar para hospedá-lo, uma vez que atualmente temos 800 Mbytes de informação e um tráfego de 25 GBYTES/mes (é isso mesmo, GIGABYTES! Estatística de julho/03), e hospedar um site deste tamanho não sai nada barato.

Ninguém vive do Dharmanet, cada um de nós tem seu emprego e suas obrigações domésticas e estamos bastante preocupados com o futuro de nosso portal, pois é e foi através dele que muitos encontraram o Budismo, ou encontraram um centro de Dharma, ou seu mestre, ou mesmo informações sobre a Asia para uma eventual viagem. Somos referência internacional qdo o assunto é Budismo e somos referenciados por qq reportagem sobre o assunto tanto no Brasil como em Portugal. Temos contato com web masters de vários sites importante de Budismo no mundo e há referências ao Dharmanet em vários sites de lingua inglesa, alemã, francesa, dentre outras.Se tivermos que "bancar" a hospedagem teremos que reduzir o tamanho do site e justamente agora q estávamos preparando o lançamento da nova versão do site, reestilizada e com mais recursos tecnológicos. É uma pena.

E tudo isso foi construído para que as pessoas encontrassem o Budismo, nada mais, pois tenho certeza de que qdo o Elton digitou o primeiro texto não fazia idéia do que estava construindo.

Sendo assim, gostaríamos de pedir a todos que se conhecerem algum provedor internet que esteja disposto a nos ajudar com a hospedagem baseado nos nossos números de volume de tráfego e hospedagem nós agradecemos imensamente, pois temos poucos dias para encontrar uma solução. Caso alguém se interesse, favor nos contatar no email penjuo@dharmanet.com.br (este será desativado em breve) ou no penjuo@budanet.org.br

Agrademos de coração desde já!!!

Gassho, Omitofo, Metta, Tashi Delek....


Pen Juo (em nome do staff Dharmanet)


[por Francisco Mahfuz] 16:22

neologismo é pra quem sabe

Que coisa bem genial isso aqui.

[por Francisco Mahfuz] 00:53

11.8.03

you're making me work so hard

Não lembrava como eram HORRIVELMENTE ENGRAÇADOS de tão ruins os clipes da DÉCADA DA VERGONHA, os anos 80. Vi agora mesmo o Erasure tocando "A Little Respect", pérola obrigatória em qualquer festa Fabicana que se preze. Sem nem falar dos cabelos e das camisetinhas apertadas, a profusão de cores e imagens sobrepostas já é uma barbaridade. O toque de mestre são os caras fazendo coreografias ao lado de letras gigantes formando a palavra RESPECT.

Mas qualquer coisa é melhor que clipes da Sandy & Júnior, KLB e B5 - ou merdas do tipo.

[por Francisco Mahfuz] 17:50

unplug and live

Não consigo entender essas pessoas que realmente preferem a internet. Sim, milhares de recursos, acesso a todos os cantos do mundo, facilidade de falar com as pessoas, BLABLABLABLA. Isso não é vida real. Eu leio, escrevo, ouço música na frente do meu computador, mas sempre pensando como seria melhor poder fazer isso longe daqui, longe dessa sala estéril e dessa tela fria que não cospe na minha cara quando fala. Não dá pra preferir ICQs e Messengers da vida à ligações de verdade, Que bom poder ouvir tua voz, fazia tempo, hein? E-mails com aquela fonte que tu gosta não chegam aos pés duma carta com aquele cheiro de PESSOA, toda rabiscada, com a escrita funda onde ela parou pra pensar e com aquela marca escura duma lágrima que foi sacudida bem rápido. E pior que essa merda vicia. Desgostoso que eu esteja, não passo um dia sem vir até aqui, escrever nesse blog, ler o dos meus amigos (ou de outros que nem são bem meus amigos, mas enfim) - quando eu sei que seria tão melhor estar num bar com todos eles falando das mesmas coisas com muito mais interesse e muito mais cerveja (e olha que eu já soube de gente que conversa online bebendo...), do jeito que era antes, antes da gente que nunca soube como era ter 20 anos e viver sem um computador. Passei alguns dos melhores dias dos últimos anos na Guarda do Embaú, onde a única coisa ligada na tomada era o som e a geladeira, e não senti a menor falta.

Acho que ando meio de saco cheio, só queria falar isso duma vez e... peraí que tá piscando uma luz ali no canto da tela e eu tenho que ver quem é.

[por Francisco Mahfuz] 04:38

rebordosa

Depois de um pudim e uma pizza no mesmo dia me dei conta de uma coisa: a melhor parte de QUALQUER comida é aquela bordinha meio queimada que CATALISA o sabor. Qual seria a possibilidade de cozinhar algo composto na sua totalidade de BORDAS CORCRANTES e DELECIOSAS?

Cobiço.

[por Francisco Mahfuz] 04:12

10.8.03

razão para comprar um celular

No meio da madrugada, a cabeça girando, brigo com a chave que resiste em não entrar na fechadura. A tontura é maior do que posso agüentar, então me apoio na parede e tomo um fôlego, tentando recuperar um pouco da consciência que deixei lá no terceiro bar por que passei. Sinto meu estômago arder e penso em simplesmente me deixar desabar aqui mesmo no corredor, nesse estado que eu tô não vai fazer nenhuma diferença. O telefone toca, e a essa hora só pode ser ela.

Me concentro da melhor maneira que dá, o desespero é um grande revigorante, vou até a porta tentar de novo, o toque contínuo gritando Vem cá, atende essa droga duma vez, preciso falar contigo!, e eu arranhando a madeira sem conseguir nada. Por alguma milagre desses que nunca acontecem comigo acerto a merda do buraco e entro esbaforido no apartamento, o telefone firme e forte berrando. Bato com o meu joelho ruim na mesa de jantar e sinto que algo saiu do lugar, e fico mais tonto do que já estava. Tento levantar mas é impossível, já sinto o inchaço na minha rótula e sei que vou ter que ir pra faca de novo. Começo a me arrastar, mas cada vez que o movimento de quadris força a minha perna machucada contra o chão eu tenho que segurar algumas lágrimas, a dor é simplesmente insuportável. Começo a imaginar o que ela pode estar querendo, já faz tanto tempo, será que ainda tem alguma coisa pra dizer? Eu tenho muito o que contar, nada de interessante, mas imagino ela dizendo Conta, não te faz, então tu operou finalmente, que bom, já tava na hora, e o cachorro, tudo bem com ele, é mesmo, que pena, eu gostava daquele safado, mas vem cá e me beija agora, e eu olho pra minha perna e vejo que a mancha roxa já é bem visível, o que não pode ser um bom sinal. Força pra chegar até o telefone eu sei que não tenho, não com o joelho assim, então tento segurar em alguma coisa e puxar, quem sabe consigo chegar mais perto pelo menos. O sofá tem um desses estofamentos folgados, meio desconfortáveis até, mas bons de agarrar, o que aparentemente só é útil durante uma foda ou quando tu tá te arrastando pelo chão como um mendigo. Seguro firme, crispo os dedos pra garantir que não vou desperdiçar o pouco de energia que ainda tenho e puxo. O sofá anda pouco menos de um metro, acerta o armário de louça e um dos pratos da minha vó cai bem em cima do meu braço, abrindo um rasgo do tamanho da boca daquela guria da MTV que aparece numas fotos segurando o pau de um cara. O corte em si não chega a doer, mas um formigamento começa a subir pelo meu antebraço enquanto o sangue sai em quantidade suficiente pra eu me preocupar bastante. O telefone é o que importa agora, depois eu dou um jeito nisso aqui. Um pouco engasgado com as lágrimas que já não consigo mais evitar, penso como eu ainda sinto saudade dela, como penso nela quando estou me sentindo completamente sozinho no meio duma multidão qualquer. Me lembro de tudo que nunca fizemos, e imagino que ela vai vir aqui cuidar de mim e Viu te falei que não era nada, só uns machucadinhos sem importância, tira essa roupa suja e vem cá, isso, como tu melhorou rápido, hein?, e sei que a gente vai ficar na cama até ela ter que sair pra trabalhar, Nem todo mundo aqui ganhou apartamento do vô rico, né?, e eu vou rir e fingir que aquilo não me incomoda. O lado direito do meu corpo já está completamente dormente, tento arrastar a cômoda do telefone até o meu alcance puxando o tapete, e até tá dando certo. Vejo que o fio do aparelho está não muito mais do que meio metro da minha mão, então junto meu último impulso e dou um solavanco no corpo, sentindo que ali meu joelho dobrou num ângulo que só ginastas e cobras dobram, mas foda-se. O telefone cai tão perto do meu rosto que eu demoro alguns segundos pra entender que não fui atingido. Minha cabeça rodopia, vejo manchas pretas pra tudo que é lado que olho, meu corpo inteiro está frio, mas consigo fechar meus dedos em volta do maldito telefone que continua incessante. Indo com ele em direção ao ouvido vou tentando pensar em tudo o que dizer, Não te preocupa que eu te perdôo, nem pensa mais nessa coisas, guria, vamos começar de novo, isso, deita aqui e vamos só dormir juntinho, respiro fundo e atendo:

Alô?

[por Francisco Mahfuz] 06:40

hold on to your bar of soap

Andei pensando em mudar-me para o vestiário do GNG, só pelo prazer de viver embaixo daquela DUCHA QUENTE BRAGARÁI - mas o vapor da sauna ia detonar meus livros, então nem era.

[por Francisco Mahfuz] 00:38

9.8.03

don't renounce this life

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia.

(...)

Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e, por ora, me é impossível conhecê-lo. Que significa, para mim, significado fora da minha condição? Só tenho como compreender em termos humanos. O que toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E essas duas certezas, meu apetite de absoluto e de unidade, e a irredutibilidade desse mundo a um princípio racional e razoável, sei também que não posso conciliá-los.

(...)

Empobrecer essa realidade cuja inumanidade faz a grandeza do homem é, paralelamente, empobrecer a ele mesmo. Compreendo então porque as doutrinas que me explicam tudo me enfraquecem ao mesmo tempo. Elas me descarregam do peso da minha própria vida e o que é mais necessário, no entanto, é que eu o suporte sozinho.

(...)

O único pensamento que liberta o espírito é aquele que o deixa só, certo de seus limites e de seu fim próximo.

(...)

O que resta é um destino de que só a saída é fatal. Fora dessa única fatalidade da morte, tudo, alegria ou felicidade, está liberto. Permanece um mundo de que o homem é o único senhor. O que o prendia era a ilusão de um outro mundo. A inclinação de seu pensamento não é mais de renunciar, mas a de explodir em imagens. Ele se representa em mitos, não há dúvida, mas mitos sem outra profundidade que a da dor humana e, como esta, inesgotáveis. Não a fábula divina que diverte e cega, mas o rosto, o gesto e o drama terrenos em que se resume uma difícil sabedoria e uma paixão sem amanhã.


Do livro "O Mito de Sísifo", de Albert Camus.

[por Francisco Mahfuz] 19:14

good for practisas

Eu não sei exatamente o quanto alguém PRECISA de alguém. Às vezes um telefonema de vez em quando, uma conversa pela internet, um fim-de-semana ocasional parecem suficientes. Às vezes não. Mas sei que nenhuma saudade é pior do que a de quem está ao nosso lado.

Só espero que tu não esteja enganada, guria - se estiver, estarei por aqui, nunca esqueça disso.

[por Francisco Mahfuz] 05:50

8.8.03

baden powell

Joaquim, piá, gordo e feio, sempre sonhou em ser lobinho. Seu pai não via aquela história com bons olhos, Que viadagem é essa de querer usar calça curta e ficar acampando com um monte de homem?, e por isso sempre o proibiu. Joaquim ficava então em casa, apertando seus dedos-bola e maquinando alguma maneira de extravasar seus instintos humanitários. Vez por outra ajudava algum pássaro machucado a se recuperar, ou alimentava um dos muitos guaipecas que tomavam banho de sol no seu pátio nesses dias agradáveis de inverno. Mas não era o suficiente. Os animais não agradeciam, não reconheciam.

Foi na semana que seu pai adoeceu que ele ajudou a primeira velhinha. Mas o que é menos importante primeiro; seu pai começou a tossir o tempo todo, sua voz ficava mais fraca e arranhava, mamãe gritava algo como Viuseufilhadaputaburronãotefaleiquessasmerdasiamtematar?, mas Joaquim não entendia exatamente o que ela dizia ou o que estava acontecendo. Agora seu pai quase não levantava da cama, e depois saiu de casa e foi levado pra outro lugar, e não voltava nunca. Mas as velhas, antes que eu esqueça: Joaquim atravessava a rua, já era grandinho e podia , quando viu uma senhora bem caquética esperando o sinal abrir; apareceu o vermelho, ela começou a se arrastar rua afora e logo teve de dar meia-volta, não tivera tempo, tal era a vagareza de seu caminhar. Joaquim parou ao lado dela e logo que a rua abriu-se novamente conseguiu, mesmo com seus passos paquidérmicos, levá-la até o outro lado. A velha agradeceu profusamente e tentou beijar-lhe a testa, mas acabou por pousar seus lábios gastos e ressequidos no nariz batatoso do menino, que se encheu duma felicidade tal que quase não cabia em si de tanto orgulho. É isso, ele pensou, enquanto dirigia-se à padaria para comprar outro sonho.

Já que seu pai não estava em casa, ele pôde iniciar a sua uniformização como há tanto pretendera: improvisou um lenço listrado com pano de prato azul e branco, puxou as meias até o joelho, encontrou uma bermuda cáqui de quando ainda não era tão volumoso (o que garantiu que ela ficasse curta e apertada, mais ou menos como ele imaginava que deveria ser) e colou numa camisa do pai um adesivo de um dos sobrinhos do Pato Donald. Olhou-se no espelho, limpou um pouco do ranho que escorria, e ficou contente. Tinha agora que ir ajudar as velhinhas.

Mas as coisas não correram tão bem. Logo que postou-se ao lado de uma senhora ele imediatamente foi, pela suspeita de ser um delinqüente, atacado a golpes de bengala. Considerou aquilo como um incidente circunstancial, nada que pudesse demovê-lo de seus nobres propósitos, e foi atrás de novas possibilidades de benfeitoria. Saltitou rechonchudamente nos bairros em volta até encontrar uma anciã carregando algumas sacolas de supermercado. Ofereceu-se para acompanhá-la até em casa auxiliando com o carregamento dos mesmos e acabou, aos gritos de Gordotaradomolequeprevaricador, atingido perto do seu polpudo traseiro com a ponta de um desses guarda-chuvas que serviriam como jangada numa eventual enchente. Um pouco chateado, voltou para casa e, indeciso entre um sorvete e um churros, decidiu tentar de novo no dia seguinte.

Sua mãe parecia sempre preocupada, não falava muito, mas abriu um tímido sorriso quando viu suas vestimentas. Afagou-lhe os cabelos oleosos e disse que tudo ficaria bem. Joaquim imaginou que ela falava das velhas, mas não entendeu como ela poderia saber, Se bem que mãe sempre sabe essas coisas, né? Já no dia seguinte, saiu à rua com renovadas esperanças, acreditando que aquele seria seu dia. Não foi. Todas as velhas que ele tentou ajudar lhe agrediram, algumas verbalmente mas quase todas fisicamente. Depois de ser atravessar três quarteirões perseguido por uma turma de hidroginástica, achou que era o suficiente e foi embora, contando os trocados para comprar um sacolé.

Os dias seguiram-se sempre iguais: as tentativas, as agressões, o lanche que lhe restituía senão a esperança, ao menos a energia para continuar. Mas Joaquim foi mudando, algo começou a crescer no seu interior forrado de Doritos e filantropia: uma aversão quase incontrolável pelas velhas. Aquilo lhe magoava, lutava contra um sentimento que não parecia de acordo com seus ideais de servir Deus, a pátria e o próximo, desonravam seu lenço de cozinha. Por isso, ele continuou tentando.

Até que um dia, digladiando-se com uma quase centenária senhora, ele a empurrou, meio que sem pensar, para o meio da rua. O motorista do caminhão nem deve ter visto, mas ele nunca vai esquecer o barulho do solavanco, o grito abafado, a fuga culpada. E o prazer. Gostou daquilo como nunca, foi muito melhor do que quando havia auxiliado aquela carinhosa velha, ou os cachorros, ou os passarinhos, muito muito melhor que os passarinhos. E disso ele fez sua rotina. Roubava bengalas, óculos, andadores, sempre de uma maneira que não fosse possível outra coisa que não o abreviamento de uma vida que, talvez um dia filosofasse, já tinho ido muito além da cortesia e da utilidade. Em pouco tempo, as ruas deixaram de ser suficientes. Começou a boicotar idosas na saída de farmácias, cinemas e bingos - às vezes causando acidentes de menor gravidade, mas ainda assim voltando ao lar esbaforido, de vez em quando com um pedaço de mandolate preso no dente, mas sempre feliz, completamente feliz.

Certa tarde sua mãe chegou em casa com os olhos inchados, vermelhos, com uma aparência muito ruim, parecia que tinha perdido o almoço ou algo do tipo. Começou a lhe dizer muitas coisas que ele não entendia, chorou um pouco, engasgou, disse algo sobre o papai estar precisando de ajuda, que ele ia fazer uma viagem pra bem bem longe, e que ela estava indo se despedir e que ia ter que ficar alguns dias fora. Ela olhou Joaquim de uma maneira muito carinhosa e falou

- Jo, eu sei que tu é um menino muito bom, não faz mal a ninguém, e sei que não precisa que fiquem cuidando de ti. Mas tu não sabe cozinhar, então pedi pra tua vó vir aqui te ajudar por esse tempinho que eu vou estar fora. Promete pra mim que vai tratar ela direito?

Joaquim abriu um grande sorriso desparelho, ajeitou seu lenço sujo de chocolate e desentalou o fundilho das bermudas que lhe apertava bastante; respirou fundo e, levantando três dedos da mão esquerda na altura das largas bochechas com a maior formalidade que pôde, deu sua palavra de escoteiro que sim.

[por Francisco Mahfuz] 23:21

sempre achei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca

O semestre letivo tá acabando e eu meio que comecei a me dar conta do quanto me obriguei a ler depois que voltei a estudar, ali pelo fim de abril - talvez para compensar a letargia dos anos anteriores. Essa é a lista, do último ao primeiro, até AGORA (tende a continuar aumentando bastante, especialmente porque as férias vêm se aprochegando):

"Todos os fogos o fogo", Julio Cortázar
"A história universal da infâmia", Jorge Luis Borges
"Ovelhas que voam se perdem no céu", Daniel Pelizzari
"Dentes guardados", Daniel Galera
"O relato de Arthur Gordon Pym", Edgar Allan Poe
"Para viver em paz - o milagre da mente alerta", Thich Nhãt Hanh
"A metamorfose", Franz Kafka
"O processo", Franz Kafka
"O estrangeiro", Albert Camus
"Deixe o quarto como está", Amilcar Barbosa
"Meditando a vida", Padma Santem
"The old man and the sea", Ernest Hemingway
"O Teatro de Sabbath", Philip Roth
"Cartas na rua", Charles Bukowski
"A Peste", Albert Camus
"Os sofrimentos do jovem Werther", Goethe
"O livro das cousas que acontecem", Daniel Pelizzari
"Édipo Rei", Sófocles
"Hamlet", William Shakespeare
"A divina comédia (Inferno)", Dante Alighieri
"Até o dia em que o cão morreu", Daniel Galera
"Meu Tio Atahualpa", Paulo de Carvalho Neto
"A Odisséia", Homero
"Iracema", José de Alencar

Pareceu pouco, até.

[por Francisco Mahfuz] 05:33

7.8.03

ironia sempre foi minha figura de linguagem favorita

Dia lindo esse de hoje. Caminhei feliz que nem pinto no lixo embaixo desse céu, me deixei arder o rosto com esse sol, pedi um pouco mais de sal pro garçom que senão fica foda, né, mestre? Bons amigos se encontram dobrando a esquina, mas é bom tropeçar num daqueles irmãos mesmo de vez em quando. Das línguas latinas prefiro a espanhola, mas provocateurs de óculos brancos fazem o francês valer a pena. Chuto uma pedra e encontro mais um motivo pra ficar alegre, é bom saber que preciso de tão pouco, mesmo tendo tanto. Sorrio com cada vez mais sinceridade, deixo a cerveja gelar pedaço por pedaço minha garganta, sei que respirar já é delírio total. Mersault só entendeu o absurdo próximo do fim, e somente agora que a minha saída pela direita tá mais perto do que um dia achei que estaria eu começo a entendê-lo. Rio sozinho pensando nisso, e espero que não seja pra disfarçar o nervosismo.

Falta só mais um mês.

[por Francisco Mahfuz] 20:28

motivos para gostar da argentina

Julio Cortázar e Jorge Luis Borges.

Filhos da puta geniais.

[por Francisco Mahfuz] 20:08

terra da oportunidade

Pessoas em quem eu votaria.

[por Francisco Mahfuz] 00:08

6.8.03

admito

Tenho cada vez mais medo de adevogados.

[por Francisco Mahfuz] 02:41

5.8.03

lo siento, pero yo no bebo vino, señorita

E o pior é que é verdade: eu tenho ESTÔMAGO DE CHINELÃO. Não consigo ingerir nenhuma bebida cujo preço ultrapasse uma dezena de reais, por via de regra. Vinho só se for Garibaldi, Sangue de Boi ou asemelhados; champanhe não desce de jeito nenhum, solamente espumante barato e olhe lá; whisky e outras bebidas DE VELHO me dão náuseas na primeira CAFUNGADA. Já cerveja, cachaças vagabundas (como a enecônica Ypioca) e vodkas com nome de piranha vão que nem um dodge.

Nunca busquei exatamente uma explicação pra esse fenômeno, que já causou certos embaraços sociais - especialmente quando tinha por CONSORTE uma pessoa financeiramente abençoada, o que multiplicava grandemente o número de vezes em que eu tinha que declinar beberagens sofisticadas com desculpas pouco convincentes. Talvez a única exceção à regra se dê com BEBIDAS DE PIRATA: tequila, rum e afins. Mas de resto, é triste.

Portanto, gurias, não se ofendam se porventura estiverem em um momento belo comigo (até parece) e eu sugerir uma CAIPA como bebida romântica - a vida é dura assim.

Ao menos o dispêndio dilatado de plata só ocorre através do consumo industrial de álcool - o que acontece muito seguidamente para ser realmente uma compensação, creio eu.

Mas não dá nada, me dá um rabo de galo num copinho sujo e eu já esqueço isso tudo.

[por Francisco Mahfuz] 01:04

4.8.03

valeu meu deus

DELÍRIO de jogar futebol essa coleção da Abril que tá saindo toda semana nas bancas; por módicos 12 pila acabo de adquirir "Moby Dick" numa edição bonitosa e aparentemente RESISTENTE, o que sempre é importante para livros GORDOS como esse. É uma baita oportunidade de conseguir na boa obras que geralmente custam OM MELHÃO DE REAIS, tipo "Dom Quixote" - e jornaleiros parcêros encomendam sem nenhum custo adicional as edições antigas que já foram recolhidas.

Dada a dica.

[por Francisco Mahfuz] 19:47

brincadeira de criança como é bom

Excelente isso, mas ainda prefiro o de verdade.

Agradecimentos ao Henrique pelo link.

[por Francisco Mahfuz] 17:51

2.8.03

no stress

Senta e cala a boca.

[por Francisco Mahfuz] 16:26

plus ça change, plus c'est la même chose

É incrível como as pessoas simplesmente não mudam - as atitudes, maneirismos, o jeito de expressar idéias... tudo igual. Com exceção das transformações adiposas e capilares, a sensação é de que o tempo absolutamente não passou. Fiquei pensando nisso desde ontem, quando tive a oportunidade de rever velhos colegas e amigos numa celebração tão farta que quase sinto vergonha do quanto bebi - quase. E o que me deixa meio intrigado é saber que por mais que eu me sinta completamente diferente, ninguém nota isso. Será que todas as mudanças são experiências internas não-compartilháveis? Seremos sempre os mesmos diante dos outros? Isso quer dizer que nunca nos alteramos ou que as verdadeiras transformações, as que importam, não são perceptíveis vistas de fora?

Eu sei que vi muita gente com outros olhos: inimizades desapareceram, antigas chamas não queimaram mais, e algumas saudades pareceram maiores. Mas algo me agradou profundamente: gosto cada vez mais dessas pessoas. Agora que as alfinetadas não mais me alcançam, posso perceber que cada um ali me traz boas lembranças e, mesmo que nunca nos tornemos amigos mais próximos, pensarei em todos com um carinho que antes não me parecia possível.

Ah, antes que eu esqueça: Parabéns, Kiko - tu merece pra caralho.

[por Francisco Mahfuz] 01:22



remember me as a time of day
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