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divagações, manuscritos e conversas de mesa de bar



28.9.03

todafiadaputa

A Mariana, que mora comigo, e muito muito massa. E feia de tao gata, divertida, me consegue bebida na parceria, fala ingles perfeito e e inteligente pra burro. E cozinha tri bem.

Apesar de namorar o cara do Scrubs e reclamar que eu nao falo bem dela aqui. Heh.

[por Francisco Mahfuz] 17:18

capitalismo

"Londres e muito cara." Isso e o que todo mundo fala, especialmente quando sabem que alguem vem pra ca pra ficar um tempo. Mas nao e bem assim. Se vens a turismo, sim, estas FODIDO. Mas eu moro aqui, e ganho em libras, entao a situacao muda completamente. Vamos a uma matematica simples, sem nem lembrar que o real vale cinco vezes menos (o que so interessa pra quem vem pra ca fazer caixa, o que nao e bem o meu caso): o salario minimo e de 4,20 por hora (vale mencionar que so quem e muito desgracado ganha esse valor; uma secretaria ganha sete, um professor ganha uns dez e um medico perto de trinta, sem nem falar de gorjetas e caixa 2 ; mas como os brasileiros que vem pra ca se ferram em empregos menores, vamos calcular assim mesmo); trabalhando 40 horas por semana (o que nao e nada pra quem ta aqui ralando) o valor acumulado por semana e de 168 libras, e de mais ou menos 670 por mes. VEJAMOS, entonces:

- eu pago 190 de aluguel mensal, e esse valor cai pra 150 quando a casa estiver completa;
- com 12 fiz um rancho decente pra uma semana - um "numero" do McDonalds custa menos de cinco libras;
- um bus custa 1, o metro 2, mas podem ser comprados passes diarios, semanais e mensais - com 20 tu anda de qualquer coisa pra qualquer lugar quantas vezes quiser por uma semana;
- numa loja de departamentos bem melhor que as C&A da vida, eu comprei um casaco GROSSE pro inverno, um blusao de la e uma camisa pra BALADA feita dum material GOSTOSIVEL por 32 libras, tudo (trabalhando na mesma noite menos de seis horas com gorjetas boas paguei TODO o gasto da tarde);
- uma camera digital como a que devo comprar logo custa 160, um MD uns 100 e um conjunto de decks pra quem brinca de DJ (como um dos cars que mora comigo) sai completo por 400;
- viajar pra qualquer lugar e barato - com 70 da pra ir e voltar de Paris de aviao, e sem precisar reservar com grande antecedencia;
- a maioria dos lugares na noite nao cobra pra entrar, e quando cobra nao passa de 6 libras;
- um pint (568ml) de Guiness, que e a "cerveja" mais cara, sai por no maximo 3 libras;
- um saco INTERMINAVEL de chips, melhor LARICA-KILLER da historia, custa UM misero pound, o que ja proporcionou que eu saciasse toda e qualquer vontade que eu ja tenha um dia expressado de me AFOGAR EM BATATAS FRITAS.

Eu trabalhei tres semanas e estou tirando em media uns £180 - e meu emprego e medianamente merda. Com uma semana e meia de rendimentos pago todas as minhas despesas ordinarias, e tenho grana de sobra pra esbanjar e ainda sobra um quantidade apreciavel que vai pro COFRE. Sem nem considerar que eu quase nao pago pra beber de noite porque tenho amigos espalhados pelos melhores bares da cidade - o que me lembra: NUNCA diga pruma irlandesa que tu bebe mais que qualquer mulher; ELAS NAO SAO HUMANAS.

Pra quem ganha bem, ou trabalha bastante, chega quase a ser uma cidade barata. Talvez isso justifique a quantidade absurda de BMWs e Mercedes que povoam as ruas. E que nem sao necessarias porque, como eu ja repeti varias vezes, o transporte publico aqui VAI QUE E UM DODGE.

[por Francisco Mahfuz] 16:58

26.9.03

dog's eye view

One-liners explicativas, talvez:

- Os ingleses e pessoas dessa regiao bebem tanto mais que a gente que chego a ficar envergonhado por um dia ter me achado DO TRAGO;
- Irlandeses tem se mostrado simpaticos e compreensiveis, apesar das lendas do sotaque inexpugnavel;
- LOIRAS GATAS socobram em Londres;
- O clima de praia que impera na minha casa e muito legal, mas e extremamente prejudicial pras minhas intencoes turisticas, ja que a galera fica largada na sala gigante e uma modorra irresistivel nos domina depois dos raros almocos coletivos;
- Os motoristas de onibus lamentam que depois dos kamikazes dirigir um veiculo com tendencias suicidas nao seja mais honrado;
- Quem bebe demais e anda nesses onibus acaba dando com a cara na barra do banco;
- Velhinhas que tomam cha sao muito massa;
- A madrugada foi feita pra caminhar sem rumo;
- Saudade aumenta quando se esta proximo das pessoas que gostamos;
- Massa, pao e ovo nao devem ser os melhores ingredientes pruma alimentacao saudavel quando sao os unicos componentes de um rancho;
- A comida aqui e muito barata, com excecao das frutas - o que e meio obvio, ate;
- Nao ha NINGUEM que nao goste da CARBONARA MAHFUZ, cujo grande segredo e que vejam uma bacia de bacon e uma montanha de queijo durante o preparo;
- Comecei mal escrevendo direto aqui porque agora serei cobrado quando nao o fizer;
- Ainda repito seguidamente "CARALHO, TO EM LONDRES";
- Voltar agora parece uma coisa muito, muito virtual;
- Odeio quando essa porra de contador do meu tempo online comeca a piscar;
- PRECISO voltar a escrever;
- Bibliotecas publicas que funcionam sao o meu joie de vivre;
- Sempre tem um idiota que instala pornografia num computador que nao e dele;
- Bebados falam muita merda - e bom quando nos seguramos e nao partimos a cara de alguem pra escutar desculpas sinceras depois.

Eu poderia continuar por muito tempo, mas fica pra proxima.

[por Francisco Mahfuz] 19:56

i gotta pay my bills, bills, bills

Sim, continuo trabalhando feito um idiota, talvez por simplesmente saber que enquanto nao acho um emprego melhor nao vai fazer mal juntar uma grana que pode garantir uma tranquilidade bem maior na sequencia. Depois de achar que treze horas era demais, fiz treze de novo ontem e DEZENOVE segunda-feira. Estranho que nao cansei tanto assim quanto na semana passada, devo estar me acostumando - ou de repente ficar no bar e bem mais facil que ser garcom, sei la. Mas pelo menos poderei comprar algumas porcarias sem me preocupar, como roupas pro inverno que comeca a chegar e parece que vai ser grosseiro e uma camera digital, atendendo a pedidos que querem ver o que anda acontecendo por aqui. Alem do mais, se o plano original for mantido, devo passar pelo menos uns quatro meses sem trabalhar depois que sair de Londres, entao nao custa fazer um caixa agora que ta barbada.

Nao se preocupem que eu to bem, apesar de alguns exageros, e esse pandemonio tem data marcada pra terminar: COISAS ponteiam no horizonte proximo, e inclusive um show apocaliptico marcara o inicio do que eu espero seja uma virada, ao menos na minha situacao trabalhista - no resto TA UMA BELEZA.

[por Francisco Mahfuz] 19:42

25.9.03

cruza o parque e segue sempre

49B Goldhawk Road
Sheperd's Bush, London
England
W12 8QP

Tel: 07742-924-914

E nois na fita.

[por Francisco Mahfuz] 21:00

20.9.03

the house of the rising sun

Nao tenho muito o que contar porque alguma rotina comeca lentamente a se estabelecer, o que de certa forma e legal. Na semana passada e nessa estou trabalhando meio fixo no bar de um hotel (meio chato, mas os outros dois caras que trabalham comigo sao muito divertidos e de vez em quando alguma gorjeta aparece), e acho que logo vou conseguir me organizar pra fazer mais turismo e ir a lugares que eu sei que devo (o supermercado e um deles).

As coisas na minha casa comecam ficar mais definidas. O negocio e que o contrato acaba em novembro, e a grana do deposito pra renovar e meio alta - alem do mais, alguem tem que assumir a responsabilidade de botar o nome na imobiliaria. O cara que ta com a casa ha uns dois anos vai embora com a namorada em dezembro, mas um australiano gente boa que morou ja aqui parece que vai assumir a bronca - o unico ponto negativo e que terei que dividir meu quarto (o que nao chega a ser profundamente ruim, mas vou ter que dar um jeito na minha bagunca). Esse australiano, o Daniel, ta de acordo com a gente que logo que esse casal sair (alem de um outro casal que deve ir embora em algum momento nos proximos dois meses) devemos substitui-los com estrangeiros. Ninguem aguenta mais falar portugues - devemos entao ficar limitados a tres brasileiros, o que ja ta mais do que bom.

Essa casa e muito, muito massa. Ja falei mais ou menos sobre a arquitetura basica dela, mas vou pormenorizar algumas coisas que me parecem interessantes. O banheiro principal e espetacular: tem uma banheira bem grande, um sofa enorme (util para fazer chapinha, dormir bebado e outras coisas que nao preciso mencionar). O problema e que o papel acaba direto (sete pessoas) e poucos se cocam pra comprar; ja passamos por algumas situacoes criticas, mas vou botar ordem nesse pardieiro. Tem tambem um banheiro menor pra chamar aquele numero 2 nada parceiro.

A sala e imensa, tem dois sofas e duas poltronas, alem de uma coffee table sempre cheia de tranqueiras - e a televisao com um Playstation 2 e uma renca de DVDs. As janelas cobrem toda sala, e dao passagem prum terraco grosseiro, de mais ou menos 25 metros quadrados. E muito muito bom chegar em casa na madrugada, como ontem, e encontrar uma galera na sala trovando e deixando o trago passar a base de chips gordurosos comprados em kebab houses, praticamente as unicas lanchonetes que ficam abertas ate altas horas.

Todos os quartos sao grandes e tem ou varias camas ou uma de casal e um sofa cama, o que ja garantiu a possibilidade de ter dezoito pessoas ao mesmo tempo morando aqui. O meu e o maior, e a minha cama fica encostada na janela, o que torna ler ali a noite (o que raramente consigo fazer) bem agradavel, com a vista da avenida na frente. O sol bate direto por todos os lados, o que torna o frio uma visita pouco constante aqui. Com excecao de um quarto que fica no sotao, uma coisa que alguem inventou ha bastante tempo e parece que agradou. E frio demais no inverno e quente demais no verao, mas o clima e a tradicao do lugar compensam. Eu nao moraria ali, mas so porque sou fresco.

Os problemas sao que a fiacao e velha e a maioria das lampadas dos corredores nao funcionam, o que faz chegar no meu quarto de noite demorado, no minimo. E a cozinha que e muito pequena e conta com uma geladeira que parece mais um frigobar do que qualquer outra coisa.E a gente e porco, dois dias de descuido e a sujeira toma conta. Mas nao dava pra querer que tudo fosse perfeito, ne?

A avenida em que eu moro e meio lixo, muitas lojas e mercadinhos, mas e so caminhar meia quadra pra dentro que volta a ser Londres, com aquelas casinhas parecidas e carroes estacionados na frente dos jardins. Quando volto do hotel de madrugada, com um Explosions In The Sky bombando no meu walkman, chego a torcer pra que a distancia seja maior do que os 15 minutos de caminhada, tao agradavel e isso aqui quando a calmaria toma conta.

E um bom lugar pra morar.

[por Francisco Mahfuz] 18:17

i won't call to say i love you

Nao fiquem chateados se eu nao mando emails pessoais e sou meio reticente no ICQ (desculpa mesmo, Rachi). A coisa e que eu nao passo quase nada de tempo na internet, entao tenho que usar esse tempo bem. Por isso tento colocar todas as novidades ou eventos que me parecem validos no blog, que e bem mais pratico que ficar contando a mesma coisa over and over again. Tambem nao pretendo ligar seguidamente simplesmente por achar que nao tem muito por que. Sinto saudades, e obvio, mas nao vou ficar ligando so pra dizer isso - e se eu comeco a ligar vou acabar criando uma obrigacao que sei que nao vou cumprir, e ai voces vao comecar a se atucanar. Alem do mais, e caro. MAS, se alguem realmente quiser falar comigo, eu tenho telefone, ta na assinatura de todos os emails que eu mando (sim, aquele e meu celular novo, eu nao esqueci do antigo).

PORTANTO, me liguem ou me procurem no ICQ, mas que seja pra mandar beijos e contar o que acontece NO BRASIL, porque tudo que posso dizer daqui eu escreverei. Nao se magoem, nao e nada pessoal. Ainda amo quase todos voces.

[por Francisco Mahfuz] 17:51

17.9.03

soak me in hot water 'cause i overworked

Atingi ontem o auge da estafa. Movido por uma sede mercenaria que nao se justifica pelas minhas parcas necessidades materiais, aceitei trabalhar durante o dia em adicao ao meu turno da noite. Fui ate o Marriot Hotel, bem pertinho do Big Ben (que realmente e bonito bragarai, tem que ver), fazer umas horas a mais. BEM, sai de casa pelas 11 da manha e voltei as 3h30... da manha. Descontando, o transporte, trabalhei mais ou menos 13 horas - cheguei em casa quase sem caminhar, sapatos sao UMA MERDA. Menos mal que a grana e boa, apesar de eu ganhar salario minimo - faturei perto de 60 libras (vale quase cinco vezes o real, facam as suas contas - mesmo aqui e um monte, paga quase toda a minha despesa da semana). So que realmente nao era trabalhar assim, cansa demais, nao tenho por que. Nao mais o farei, se possivel. Ponto positivo e que o Marriot trata os funcionarios excepcionalmente bem, almocei frutos do mar e comi canapes e tortas e frutas a tarde inteira na frente do meu supervisor, que so me xingava quando eu nao pegava um pouco pra ele antes de jogar fora. Gente boa esse cara.

As bibas comecam a se multiplicar. Pra tudo que e lado que olho tem uma boneca, e os brasileiros ajudam a aumentar consideravelmente esses numeros. Por enquanto nao tive problemas, espero que continue assim.

Nao aguento mais falar portugues. Em tudo que e lugar que vou tem brasileiros, especialmente nos hoteis. Entao, na proxima vez que virem um filme em que pessoas ricas jantam nos melhores hoteis do mundo, saibam que um MANE COMO EU ta trabalhando ali - mao-de-obra especializada PORRA NENHUMA. Mas eu me puxo.

A busca por um emprego melhor continua, lentamente, esperando que algo caia no meu colo. Com a sorte que tenho tido, caira. Aguardem.

Logo que tiver um tempinho, vou me enfiar na enorme banheira que tem na minha casa e descansar. To precisando.

[por Francisco Mahfuz] 14:59

15.9.03

hang me out to dry 'cause i overdrank

Foi so falar que eu nao estava bebendo cerveja suficiente que eu descobri algumas vantagens de ter amigos trabalhando em bar. Domingo de tarde eu e uma das minhas flatmates fomos prum bar australiano chamado Redback, onde a Mari (outra das que moram comigo) e bartender. Todo domingo rola um BBQ (churrasco americano, com linguica, hamburger, pao salada) LIBERADO. E a bebida e barata demais, so 1 libra a longneck. Cheguei, peguei uma ceva e fui pra fila. Quando acabou a bebida, a Elaine (a que foi comigo) foi buscar mais e voltou com QUATRO GARRAFAS. E nao pagou nada. A Mari fez uma falcatrua e deu de graca pra ela. Nem preciso dizer que bebemos praticamente sem pagar nada o dia inteiro, com direito ate a shots de tequila, e depois fecharam a parte de tras (estilo meio de praia, com areia e tudo, onde tava rolando o churrasco) e o treco BOMBOU - pista de danca e tudo mais. Sai de la todofiadaputa pelas 9 e tanto da noite, errei alguns bus mas cheguei em casa na boa, depois de me atracar num saco gigante de CHIPS (batata frita, pra quem e chinelo). E o melhor e que isso rola todo domingo, sem falta. Obviamente, IREI.

[por Francisco Mahfuz] 13:57

13.9.03

the devil is loose in picaddilly circus

Ando muito a flor da pele, ja faz algum tempo. Sinto tudo demais, o que as vezes e muito bom e as vezes e muito foda - mas ainda bem melhor do que estar anestesiado, como me lembro de recentemente estar. Hoje, por exemplo. Estava no metro, e abro um grande parentese pra dizer algo sobre ele: nao so e um meio de transporte absurdamente eficiente e facil como tambem uma baita fonte de entretenimento. Vejo direto uma galera com violao dando altos shows, coisa que no Brasil a gente paga pra assistir. E as estacoes sao ducaralho, cada uma com uma decoracao e estilo diferente, desde gravuras antigas nas paredes ate pinturas contemporaneas. Entao estava eu hoje descendo as escadas quando passam correndo por mim o Leao Covarde e o Espantalho do Magico de Oz; abri um baita sorriso e puxei a camera da mochila, e ai eu vi um cara todo desgracado pedindo esmola - com um pitbull branco muito lindo do lado, com uma baita cara de coitado. Passei, voltei e dei um punhado de moedas pra ele e disse "Take care of the dog, mate". Ele me deu aquele olhar que so quem tem cachorro conhece e eu segui em frente, com alguma dor no coracao.

Me mudei hoje. Fui pra Sheperd's Bush, que se nao e tao legal quanto Camden e ao menos mais central. To numa casa de brasileiros, por enquanto sete. E um sobrado de cinco andares, mais ou menos dois quartos por andar; dois banheiros, uma sala enorme com tv, dvd e sacada, cozinha e lavanderia. Ja soube por uma outra guria que sao feitas RAVES la, o que nao pode ser de todo ruim. Estou sozinho num quarto enorme, mas logo devo dividi-lo com mais gente. E pagando uma ninharia.

Foi dado o primeiro passo para algo que pode ser massa: peguei todas noites dessa semana num bar de um hotel que eu ja tinha trabalhado, o que pode render uma rota fixa no mesmo hotel e GORJETAS, joie de vivre de todos os que ralam aqui em Londres. Tambem sobre trabalho, trampei ontem numa recepcao de japoneses e so nao cozinhei: arrumei mesas, servi champagne. entradas, prato principal, sobremesa, cafe, tirei tudo e lavei. Foi cansativo mas enriquecedor. Descobri que consigo carregar uma pilha grosseira de pratos no antebraco, ao menos. Ah, na proxima vez que estiverem num restaurante e pensarem "nem toquei na sobremesa, que desperdicio, vai tudo fora", nao se preocupem, NADA VAI FORA. Heh.

Alguma rotina e legal, entao hoje eu tentei ir de novo numa biblioteca que visitei esses dias pra continuar lendo o "Cement Garden", do mestre filhadaputa Ian McEwan. Como rotineiro, me perdi e quando achei a chonga ja estava fechada. Sai entao perambulando sem rumo e acabei num dos pontos mais belos da cidade: Leicester Square. Uma praca bela como toda praca devia ser. Logo adiante estava Trafalgar Square (aquela dos leoes e das fontes, na frente do National Gallery) e um pouquinho mais ainda Picaddilly Circus (onde vi, entre as performances de rua, um pastor alucinando pedindo que nos entregassemos ao JC). E tudo tao massa, tao inacreditavel, que muitas vezes me seguro pra nao cumprimentar o primeiro que passa na minha frente e gritar "CHEERS, LAD, YOUR CITY IS BRILLIANT".

Preciso beber mais cerveja, so isso.

[por Francisco Mahfuz] 02:02

um dia, quem sabe

You sweet voice
Lets me know there is a choice
Please me slow
Oh, Much more slowly than that

And when we danced
We danced warm cheek to cold cheek
A sideways glance
I knew you were looking at him

I can't call you a friend
Cause when you left me here
You left me here to die
Don't worry I wont call you again
Cause when I take a hint
I take it pretty hard
And when you broke my heart
you broke it into shards of glass

The telephone yells out
At me to wake
I won't be blamed
For someone else's mistakes
It's your sweet voice
Sounding cheery and warm
It breaks my heart
But I summon up all my charm

Can I call you my friend?
It's been so long
Since we have talked
and I miss you
Don't worry I'm over you right now
So my feelings wont get in the way of it
Oh, I miss the way we talked
about the little things


"Your Sweet Voice" - The Reindeer Section

[por Francisco Mahfuz] 01:52

10.9.03

the last word is rejoice

Acharam a minha mala e ja me entregaram. Ufa. Algumas de POA tinham se perdido, e as outras todas chegaram no dia seguinte, so a minha que nao. Toquei um horror na companhia aerea e acabei ganhando 100 dolares. Com o gasto em cuecas, meias, uma camiseta e uma toalha, sai com um lucro de 40 libras. E aprendi que a minha bagagem podia ser menor ainda - nao devo precisar de mais do que a calca que uso agora, e blusoes sao meio inuteis tambem. Mas foi triste quando eu estava provando minha ROUPA DE GARCOM, senti um fedor e notei que era eu. Inclui cuecas, meias e a camiseta na hora no resto, que consistia de GRAVATA BORBOLETA e outras coisas. Se bem que ja tinha passado mais tempo sem banho quando era guri, entao nao foi tao dramatico.

Ja trabalhei dois dias e foi muito massa. No segundo dia aqui fui numa agencia de empregos, fui razoavelmente treinado e me mandaram no dia seguinte prum hotel. O trabalho era de ser garcom durante essas convencoes, ficar levando salgadinhos e drinks pruns gordos e japas. Um pouco cansativo, especialmente por carregar caixas pra cima e pra baixo, alem de ficar TRANCADO NO FREEZER CONTANDO CERVEJAS, mas nada demais. E a minha chefe era uma francesa TORTA que fala com aquele sotaque de filme de sacanagem, extremamente desconcertante. Pontos baixos: usar sapatos e me barbear. Ah, e ver a quantidade absurda de brasileiros que tem aqui, falo mais portugues do que ingles, quase.

Espero me mudar logo, o albergue ate e legal mas e muito caro. Esses dias comecei a curtir um pouco mais, desci pra sala e fiquei conversando com uma baita galera diferente. Discussoes sobre a cultura de cerveja na Belgica, a crueldade da industria de cigarro atraves dos olhos dum frances lunatico e as historias de um japa que mora no albergue e anda de meias pra cima e pra baixo o dia inteiro. Conheco tambem um ingles que se mudou pro albergue porque saiu de casa e comprou DEZ revistas de mulher pelada em uma tarde, alem de ja ter colado uns posters na parede do quarto. Ruim e que muda a galera do quarto toda hora, fica dificil conhecer alguem direito. Sobre seguranca, ainda nao tive problemas, e olha que deixei a chave do locker na porta duas vezes e minha camera ficou duas noites seguidas em cima duma cadeira e ninguem pegou. Mas posso so ter tido sorte.

A regiao que eu to e ducaralho. Dou altas bandas na madrugada, especialmente porque posso andar o quanto quiser de bus e metro a seguranca nas ruas e quase total. Se bem que me oferecem drogas a cada 5 metros, mas isso nao quer dizer muita coisa. Todos os malucos de Londres aparecem por aqui, e ate os lojistas tem grande senso de humor; na porta duma loja de discos diz "DON`T WALK INTO THE DOOR. IT HURTS." Se nao fosse pela grana gostaria de ficar por aqui, mas eu tambem nao conheco quase nada ainda, posso gostar mais de outros lugares.

Tenho comido coisas meio estranhas, tipo comida tailandesa e arabe lixo, como o famoso SHISH KEBAB - a coisa mais apimentada que jah comi, quando vi tava mastigando uma pimenta gigante e um limao. Quase chorei. Bom, quando comi o treco tailandes sai correndo pela rua ate chegar no albergue e mergulhar a cara na agua. E esses dias uma americana parceria me pagou a janta num pub, onde descobri que a Guiness nao e tudo isso que falam, e meio ruim ate. O gosto deles pra ceva e bem diferente do nosso.

Enfim, to curtindo. Mais noticias assim que elas ocorrerrem.

[por Francisco Mahfuz] 23:45

9.9.03

e esse passaro grande avoa mesmo

Viagem bem divertida. Muitas coisas a serem consideradas.

A comida e bem legal, mas, num voo de 15 horas, NUNCA sirvam REPOLHO. Nao e uma boa ideia.

Troquei de lugar na parceria prum casal ficar junto e acabei sentando com uma mina e um cara espanhois, muito parceros. Conversamos direto, foi bom especialmente porque eu NAO CONSIGO DORMIR EM AVIOES. Cheguei aqui detonado, mas obviamente nem dormi direito ainda - tambem porque o cafe da manha e cedo, e a comida no geral e muito cara, entao nao da pra perder.

Frase na asa: "DO NOT WALK OUTSIDE OF THIS AREA". Hein?

Quando aterrisamos em Madrid a galera APLAUDIU. Achei meio aquela sensacao de quando aplaudem o hino, mas depois, comentando com o OSCAR DE LA HOYA CLUBBER do meu lado, chegamos a conclusao de que tem gente que manobra um carrinho bem pior, entao tudo bem.

Algo que me chamou a atencao logo de chegada e tem sido confirmada nesse longo tempo que aqui me encontro: GATAS. MUITAS GATAS. E nao falo aqui de minas bonitinhas, mas de BOILING HOT PIECES OF DICK-LOVING FEMALE MEAT (ok, nem todas sao "dick-loving", mas isso nao chega a ser ruim, vamos combinar).

Gastei uma grana fodida ate me dar conta que pegar um free-pass de bus e underground valia muito mais a pena. Ah, o sitema de subway e absurdamente bom e ate eu entendo - da pra atravessar as principais partes da cidade na boa em muito pouco tempo. E os onibus altos sao TRIMMMASSA, so que eu fico olhando a paisagem e perco todas as paradas.

Gente de tudo que e lugar, ingles e o que eu menos ouco aqui.

Acabou meu tempo. Fui.

[por Francisco Mahfuz] 00:48

cry me a river

Sim, chorei no aeroporto. Despedindo-me, derrubei algumas lagrimas e nao estendi os cumprimentos mais do que achei necessario, e sei que algumas pessoas me pensaram fresco por isso. So nao quis fazer nada mais dificil. No salao de embarque foi meio foda, mas recuperei-me logo. Mas todas as lagrimas foram sinceras, acreditem.

[por Francisco Mahfuz] 00:39

news from home

Porto Alegre - A equipe do Internacional levou um susto durante o coletivo desta tarde no Estádio Beira-Rio. O meia Élder Granja foi atingido por uma BOLA NA NUCA de um chute do goleiro reserva João Gabriel.

HUAHAUHAUHAUHAUHUJHUAJKAHUAH.

Grifo obviamente meu.

[por Francisco Mahfuz] 00:37

not mi focken fault, mate

Antes de qualquer coisa, me desculpo pelos horrores gramaticais que vou escrever, mas alem de nao ter tempo de checar o que digito, os teclados daqui nao ajudam. Entao, imaginem a pontuacao onde ela nao existe. Obrigado.

[por Francisco Mahfuz] 00:35

7.9.03

london, baby

I'm in.

[por Francisco Mahfuz] 13:57

6.9.03

remember me as a time of day

Último post antes de embarcar - atualizarei isso aqui sempre que possível.

Sejam legais.

"But you can't just turn your back on all your responsibilities and run away from them," Major Danby insisted. "It's such a negative move. It's escapist."
Yossarian laughed with buoyant scorn and shook his head. "I'm not running away from my responsibilities. I"m running to them. There's nothing negative about running away to save my life."

[--Catch-22, de Joseph Heller]

[por Francisco Mahfuz] 05:57

5.9.03

the road is life

É incrível a solidariedade que se cria por quem bota o pé na estrada. Pessoas com quem nunca tive tanto convívio, algumas que eu até não gostava tanto, me foram absurdamente generosas e solícitas ao saber que eu estava indo viajar. Tenho feito vários contatos com gente na Europa e todos fazem grande esforço pra dar uma mão, serem simpáticos e tal. Legal isso.

Mas será melhor quando todo mundo se der conta que, na verdade, nós estamos só de passagem por aqui - aí de de repente esse tratamento que eu hoje recebo vire regra, e não exceção.

[por Francisco Mahfuz] 06:24

espero que não

To travel is to change the scenery of solitude.
[Mário Quintana]

[por Francisco Mahfuz] 06:18

4.9.03

never go against the family


Eu, Pep o cão mijão, meus três irmãos, o velho Mafa e meu avô, o profeta, dono do terreno onde hoje está a melhor empresa do mundo.

[por Francisco Mahfuz] 19:33

3.9.03

sell my old clothes, i'm off to heaven

Atendendo a pedidos, aí vão os dados da minha partida no PRÓXIMO SÁBADO:

Aerolineas Argentinas, AR 1215, com destino à Buenos Aires, às 10h20 do dia 06/09

Tenho que embarcar às 9h35, então estarei pelo Salgado Filho (quase certeza que na parte nova) pelas 9h00. Depois da hora de embarque não garanto minha presença por lá, então apareçam antes, se quiserem.

Ficarei feliz.

[por Francisco Mahfuz] 17:54

um café

Acordo com os chamados do cobrador do ônibus que tenta ainda educadamente me avisar de que chegamos ao fim da linha. Não sei exatamente onde estou, nunca vim a essa parte da cidade antes. Pergunto se posso ficar dentro do veículo até que ele dê a volta e escuto que não, que terei que esperar ao menos trinta minutos até o turno do próximo motorista. Resignado, desembarco e começo a olhar em volta. Ruas de chão batido, alguns cães vadios e casebres de madeira dão um tom rural à paisagem. O cobrador passa por mim e amistosamente avisa que cem metros adiante posso encontrar uma lanchonete aberta. Apesar de estarmos no final da primavera, um vento sussurrante me enregela, e penso que uma caminhada e um café quente viriam bem a calhar.

A lanchonete é bem simples, daquelas encontradas em beiras de estrada. O neon tremula na noite escura mostrando "oana's" escrito em letras garrafais, e automaticamente imagino que não faria nenhuma diferença repôr aquele "J" que ninguém mais sabe dizer quando se perdeu. A porta range e os dois únicos clientes lançam-me olhares de desaprovação pela brisa intrometida que é minha acompanhante. O que está mais à direita, perto da janela, é um senhor de idade avançada e dentes raros, com o rosto cheio de vincos fundos e histórias para contar. O outro é um tipo rechonchudo, volumoso, mas sem o ar de alegria febril que geralmente caracteriza a espécie. Logo que a porta fecha-se o vento vai atrás de compromissos mais prementes, e os dois perdem qualquer interesse que poderiam ter por mim sentido. Procuro um lugar longe do balcão e me sento. Aguardo alguns minutos e, quando estou a ponto de ir cobrar algum atendimento, vejo a garçonete que se aproxima e meu coração dispara; é uma moça loira, do alto de seus quase trinta anos, e é absolutamente estonteante. Busco minha memória a fundo e vejo que meu vocabulário não pode descrever tanta beleza, portanto não o faço. Ela sorridente me oferece o cardápio e eu, contendo um princípio de gagueira, peço um café forte, sem açúcar, que logo é servido. Começo a beber lentamente, imaginando que atitude deveria tomar. Escrever um bilhete no guardanapo seria clichê demais, e ela poderia amassá-lo e acabar não lendo. Que outra alternativa me resta? Terei de falar-lhe o que penso, não há outra maneira. Sorvo a bebida em agora longos e ansiosos goles enquanto procuro reunir toda a coragem que não acredito possuir.

Ela vem em minha direção com a jarra fumegante e me pergunta se desejo mais um café. Respiro fundo e digo que sim, mas que também desejo saber seu nome e a que horas ela sai do serviço. A moça mostra-se um pouco acanhada mas, enquanto me serve, diz que se chama Maria. Eu sorrio pensando em todas as possíveis implicacões bíblicas do momento e insisto sobre a hora em que ela estará livre. Ela responde e rapidamente volta para perto do balcão. Por algum tempo trocamos olhares cúmplices, até que vejo-a saindo da lanchonete já sem avental e indicando-me com um sinal que devo ir atrás.

Caminhamos juntos em silêncio e depois iniciamos uma conversa que parece ter sido ensaiada por toda nossa vida. Eu digo o que faço, Maria fica contente e diz achar que eu devo ser muito talentoso. Fingindo uma modéstia que nunca tive, agradeço embaraçado. Logo estamos de mãos dadas, e ela busca refúgio do frio inclemente dentro do meu abraço. Subitamente desprende-se, ganha distância e ensaia alguns passos e piruetas. Então, com os olhos marejados, me conta como era bailarina e vivia tão somente para a dança, mesmo contra a vontade da família; quando viu que não conseguiria sustentar-se assim já era tarde demais para aprender qualquer outra coisa que não sobreviver, e ela nunca mais dançou. Eu a consolo, digo que as coisas não precisam ser desse modo e beijo seus lábios já úmidos pelas lágrimas que minha terna compreensão não conseguiu evitar. Com cuidado deito-a no chão e começo a lhe despir, ao que ela com o olhar consente.

Despertamos com a claridade dos primeiros raios de sol e conversamos sobre qualquer coisa boba, tornada importante pela paixão que não nos é possível negar. Maria diz como não merece alguém tão bom, que ela é só uma miserável morando num fim de mundo qualquer, que sabe que seu destino não é ser feliz. Eu escuto sem nunca tirar os meus olhos dos seus. Quando ela termina, pergunto se não quer sair dali e ir comigo para casa, ser minha mulher, voltar a dançar, começar a viver. Observando seu rosto com toda atenção, busco qualquer traço que indique aceitação, euforia, rejeição, repúdio, qualquer coisa, mas só encontro impaciência. Ela me olha firme e pergunta

O senhor quer mais um café ou não?

Agradeço fazendo um sinal negativo, deixo alguns trocados sobre a mesa e saio da lanchonete de cabeça baixa. Caminhando até a parada de ônibus penitencio-me por nunca haver comprado um carro, e penso que a solidão deveria ser proibida a quem não pode dirigir sem destino numa madrugada fria.

[por Francisco Mahfuz] 17:07

fui na pedicure

Fui sim, e daí? Mas peraê que a coisa não é bem assim. Dirigi-me ao mundialmente famoso Dr. Scholl's pra me livrar dumas SUPERFÍCIES CALOSAS no CALCÂNEO do meu PISANTE. Entro na salinha, vejo um ambiente cirúrgico e penso que ali a coisa era DI RESPONSA. Aí uma mulher vestida de médica chega, veste luvas brancas, põe uma máscara e esteriliza os instrumentos. MAS QUE BELEZA, penso eu. Então são colocados CHUMAÇOS de algodão entre meus dedos e ela começa a FAZER MINHAS UNHAS. Aguardo intrigado por alguns minutos e depois ela realmente ataca os calos, ESMIRILHANDO-OS com uma LIXA MOTORIZADA FROM HELL. Rolou até um creminho na finalêra.

Enfim, consegui o que queria e, de brinde, meus pés estão uma BELEZURA.

[por Francisco Mahfuz] 06:15

2.9.03

six million dollar man

Consegui. Apesar de só ter começado a juntar grana há um ano, atingi a minha ambiciosa meta financeira ONTEM. Muitos sacrifícios foram feitos, especialmente no ano passado, mas viajarei tranqüilo, e até estou me dando o direito de algum esbanjamento na reta final.

Aqui agradeço a todas as noites que me bancaram, todas as caronas, e toda a paciência com a minha sovinice. Um dia pagarei.

[por Francisco Mahfuz] 02:02

1.9.03

take the picture now


Cercado de gatas ainda tentando negociar uma fagocitose.



Reparem no meu irmão aparentemente tentando ensinar alguém como fazer um xsspá mea bilça, além daquele trombadinha bem na frente da foto.



Imagens não conseguem transmitir a adrenalina do momento.



Instante de rara beleza entre a parede, Nego e Ananda, o casal mais fashion que conheço.

As fotos são cortesia do sempre prestativo Bruno Galera.

[por Francisco Mahfuz] 04:31



remember me as a time of day
shared the ramblings of a drinking dog